A mentalidade é o nosso maior atraso na tecnologia
Os portugueses desconfiam mais da IA do que quase todos. Como europeus, americanos e chineses olham para a tecnologia e o que essa diferença nos custa.

Quando se compara a Europa com os Estados Unidos e a China, fala-se de chips, de investimento e de regulação. Tudo isso conta. Mas eu acho que o atraso maior está na forma como olhamos para a tecnologia.
Queremos os benefícios e desconfiamos da ferramenta
A KPMG e a Universidade de Melbourne fizeram um inquérito a mais de 48 mil pessoas em 47 países, com dados recolhidos entre o fim de 2024 e o início de 2025. Em Portugal, só 36% das pessoas se mostraram dispostas a confiar na IA, contra 46% na média mundial. Ficámos entre os países mais desconfiados.
O curioso é que 88% dos portugueses esperam benefícios da IA e 85% estão preocupados com os efeitos negativos. Queremos o resultado, mas não queremos tocar na ferramenta.
Do outro lado do mundo, a conversa é outra. Num inquérito da Ipsos citado pelo AI Index de Stanford, 83% dos chineses diziam que os produtos de IA trazem mais benefícios do que desvantagens. Nos Países Baixos eram 36%.
Os americanos também desconfiam, mas apostam
No mesmo inquérito, só 39% dos americanos achavam que a IA traz mais benefícios do que desvantagens. Tão céticos como muitos europeus.
A diferença está em quem decide. Em 2025, segundo o AI Index de 2026, o investimento privado em IA nos EUA foi de cerca de 286 mil milhões de dólares. Na Europa inteira, cerca de 21 mil milhões. O cidadão americano pode desconfiar, mas o empresário e o investidor arriscam na mesma. Se correr mal, fecha-se e começa-se outra. Lá, ter falhado uma vez conta como experiência.
Na China, o empurrão vem do Estado, que define metas e prazos para pôr a IA em toda a economia. As empresas seguem e testam em escala.
Na Europa, primeiro o parecer
O relatório Draghi, de setembro de 2024, já dizia que a Europa ficou em grande parte de fora da revolução digital trazida pela internet. Das 50 maiores empresas de tecnologia do mundo, só quatro são europeias.
Os números do Eurostat de 2025 mostram onde estamos presos. Entre as empresas europeias que pensaram usar IA e desistiram, 70,9% apontaram a falta de conhecimentos, 52,5% a dúvida sobre as consequências legais e 48,8% o receio de violar a proteção de dados. A razão menos apontada foi a IA não servir para a empresa.
Leio isto assim: as empresas acham que a IA lhes serve, mas não avançam porque não sabem por onde pegar e têm medo da lei. É uma mentalidade de quem pede o parecer jurídico antes de fazer o primeiro teste. São, no fundo, as mesmas razões que ouço aos empresários portugueses.
O que dá para mudar já
A boa notícia é que a mentalidade muda mais depressa do que uma fábrica de chips se constrói.
- Falta de conhecimentos resolve-se com quem já sabe. Ninguém tem de aprender tudo sozinho antes de experimentar.
- O medo da lei merece meia hora de leitura. A maior parte do que uma PME faz com IA (ler faturas, resumir emails, responder a clientes) não está nas categorias de alto risco do AI Act.
- A proteção de dados resolve-se a escolher bem as ferramentas e os contratos.
Se tiver uma ideia que anda a adiar por causa destas dúvidas, marque uma conversa e testamos se faz sentido.


