Confeção no Brasil e em Portugal: o mesmo ofício, outra escala
A indústria têxtil e de confeção brasileira em números, comparada com a portuguesa: dimensão, concorrência asiática, mentalidade e digitalização.

Quem acompanha a indústria da confeção acaba sempre por olhar para o Brasil. A língua é quase a mesma, as máquinas de costura também, e uma gama operatória é uma gama operatória em qualquer lado. Mas a escala e a forma de pensar são outras.
Um setor dez vezes maior
Segundo a Abit, a associação da indústria têxtil brasileira, o setor fechou 2025 com faturação acima de 220 mil milhões de reais, cerca de 25,7 mil empresas e 1,34 milhões de pessoas a trabalhar. Só em empregos, é mais de dez vezes o têxtil e vestuário português, que a AICEP conta em pouco mais de 120 mil pessoas, espalhadas por mais de 12 mil empresas.
O modelo também é diferente. O têxtil português vive muito das exportações, que em 2025 chegaram aos 5 499 milhões de euros. Uma confeção portuguesa pensa no cliente alemão, francês ou espanhol. Uma confeção brasileira tem um mercado interno enorme à porta e pensa primeiro no consumidor do próprio país.
O mesmo adversário
Na mesma notícia, a Abit queixa-se da concorrência das importações asiáticas, sobretudo da China. É a conversa que se ouve em Portugal há vinte anos.
E a resposta, nos dois países, passa pelo mesmo: prazos cumpridos, séries curtas e custos conhecidos ao cêntimo. Contra o preço asiático ninguém ganha. Ganha-se na rapidez e na fiabilidade, e isso não se faz sem saber o que está a acontecer na produção a cada hora. Escrevi sobre isto em o têxtil português tem de virar uma indústria de dados.
Mentalidade: experimentar primeiro
Onde os dois países mais se afastam é na atitude perante a tecnologia. O IBGE mostrou que 41,9% das indústrias brasileiras com 100 ou mais pessoas já usavam IA em 2024, mais do dobro de dois anos antes. Em Portugal, segundo o INE, 11,5% das empresas usavam IA em 2025. Os universos não são iguais (lá contam só indústrias maiores, cá todas as empresas com 10 ou mais trabalhadores), mas a diferença de ritmo nota-se.
O brasileiro experimenta e, se servir, fica. O português pede mais garantias antes do primeiro passo. Já escrevi sobre isto com mais detalhe em o Brasil e a IA.
A mesma língua, outras palavras
Há um pormenor que parece pequeno e não é. Em Portugal o operário regista uma encomenda, uma paragem e um arranjo. No Brasil, o funcionário trabalha num pedido, regista uma parada e faz um conserto. Guardar é salvar, ficheiro é arquivo, utilizador é usuário.
Uma costureira que vê "paragem" num tablet sente logo que aquele programa não foi feito para ela. Qualquer tecnologia para o chão de fábrica que queira servir os dois países tem de falar as duas variantes do português, e não apenas traduzir botões.
Depois há a geografia. O Brasil tem vários fusos horários e fábricas a centenas de quilómetros da cidade mais próxima. A tecnologia tem de se aguentar sozinha: registos que continuam quando a rede falha, dados na cloud, problemas resolvidos à distância. Em Portugal ainda se resolve muita coisa com uma visita à fábrica.
O que podemos levar de lá
Portugal tem a qualidade, a rapidez e a proximidade aos clientes europeus. O Brasil tem a escala e uma vontade de experimentar que nos falta muitas vezes. Uma confeção portuguesa que junte as duas coisas fica muito difícil de bater, venha a concorrência de onde vier.
Se quer pôr a produção da sua confeção em números, veja o Softêxtil ou marque uma conversa.


