O Brasil e a IA: o que as empresas brasileiras nos ensinam
A indústria brasileira mais do que duplicou o uso de IA em dois anos. Como as empresas do Brasil adotam a inteligência artificial e o que podemos aprender.

Em Portugal ainda há quem olhe para o Brasil como um país atrasado em tecnologia. Os números dizem que essa ideia está muito desatualizada.
A indústria acelerou
Em setembro, o IBGE publicou a Pintec Semestral, um inquérito à inovação nas empresas industriais com 100 ou mais pessoas. Em 2024, 41,9% dessas indústrias já usavam inteligência artificial. Em 2022 eram 16,9%. Mais do que duplicou em dois anos.
Onde usam? Sobretudo na administração (87,9%), na parte comercial (75,2%) e no desenvolvimento de produtos e processos (73,1%). Começaram pelo escritório, onde a IA dá resultado mais depressa, e só depois chegam à produção.
As pessoas já lá estão
Em agosto de 2025, a OpenAI anunciou que ia abrir escritório em São Paulo. Na altura, o Brasil estava entre os três maiores mercados do ChatGPT, com mais de 50 milhões de utilizadores e cerca de 140 milhões de mensagens por dia.
Isto diz muito sobre a mentalidade. O brasileiro experimenta. Vê uma coisa nova, instala, usa, e se servir fica.
O Pix é o melhor exemplo. O sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central arrancou no fim de 2020 e em 2024 já movimentou 26,5 biliões de reais, mais 54% do que no ano anterior. Em quatro anos, mudou a forma como um país inteiro paga as coisas.
Nas empresas brasileiras, muita coisa passa pelo WhatsApp: encomendas, aprovações, fotografias de problemas na linha. A comunicação já é por conversa, e isso deixa o terreno preparado para a IA, que funciona exatamente assim.
O Estado também se mexeu
Em 2024, o governo apresentou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com 23 mil milhões de reais previstos até 2028, a maior parte para inovação nas empresas.
A lei da IA anda mais devagar. O projeto PL 2338/2023 foi aprovado no Senado em dezembro de 2024 e continua na Câmara dos Deputados, onde a votação passou para 2026.
O que podemos aprender com eles
Primeiro, a ordem das coisas. No Brasil, as empresas começaram a usar enquanto a lei ainda se discutia. Na Europa fizemos ao contrário: primeiro a lei, depois logo se via. Regular faz falta, mas esperar pela regra perfeita para começar a experimentar sai caro.
Segundo, a decisão rápida. A minha impressão é que no Brasil se decide mais depressa e se aceita melhor que a primeira versão não seja perfeita. Em Portugal pedimos mais garantias antes de dar o primeiro passo.
Terceiro, começar pelo que as pessoas já usam. Se a equipa vive no telemóvel e no WhatsApp, a ferramenta tem de lá chegar, e não obrigar toda a gente a aprender mais um programa.
Se quiser trazer um bocadinho dessa atitude para a sua empresa, marque uma conversa sobre IA.


