Automação: o trabalho chato vai desaparecer, e ainda bem
Copiar dados, conferir faturas, mandar o mesmo email vinte vezes. A automação vai acabar com o trabalho repetitivo nas empresas e eu acho que é uma boa notícia.

Quando se fala de automação, a primeira reação de muita gente é o medo. "As máquinas vão tirar-nos o emprego." Eu entendo de onde vem, mas vejo isto ao contrário: o primeiro a desaparecer é o pedaço do trabalho que ninguém quer fazer.
Ninguém entrou numa empresa a sonhar copiar números de um PDF para o programa de faturação.
O que é trabalho repetitivo, na prática
Pegue numa semana normal de uma pessoa do escritório e conte as horas gastas nisto:
- copiar dados de um sítio para outro (email para ERP, Excel para Excel, encomenda para folha de produção);
- conferir se a fatura bate com a encomenda;
- mandar o mesmo tipo de email, com pequenas alterações, a vários clientes;
- procurar um documento que alguém guardou "na pasta do costume";
- juntar números de vários programas para fazer o relatório de segunda-feira.
Quando faço esta conta com alguém, dá quase sempre uma boa parte da semana. Às vezes metade. E é aí que as pessoas se cansam, se enganam e se desmotivam.
Os números grandes dizem o mesmo
A McKinsey estimou em 2023 que a IA generativa, juntamente com outras tecnologias, tem o potencial teórico de transformar entre 60% e 70% do tempo de trabalho dos trabalhadores de hoje. Teórico, atenção. Não quer dizer que aconteça amanhã, mas dá o tamanho da coisa.
Sobre o emprego, o Fórum Económico Mundial, no Future of Jobs Report 2025, prevê que até 2030 sejam criados 170 milhões de postos de trabalho e eliminados 92 milhões. O saldo é positivo.
As pessoas que hoje passam o dia a copiar dados vão passar a tratar das exceções, a falar com clientes, a resolver problemas. O que exige cabeça fica com elas.
Automatizar já não é o que era
Há cinco anos automatizar era caro e rígido. Os dados tinham de vir sempre no mesmo formato, senão partia tudo. Uma fatura com o layout diferente e lá ia alguém resolver à mão.
Hoje um sistema consegue ler uma fatura que nunca viu, perceber um email escrito à pressa ou entender uma encomenda enviada em fotografia. Isto abre a automação a coisas que antes precisavam de uma pessoa a olhar. Já escrevi sobre programar com IA e o efeito é parecido: o que era demasiado caro para automatizar numa PME passou a compensar.
Por onde eu começaria
O erro mais comum é querer automatizar tudo de uma vez. Eu faria assim:
- Escolher um processo que irrita toda a gente e que acontece todos os dias.
- Medir quanto tempo leva hoje, mesmo que seja por alto.
- Automatizar só esse, com uma pessoa a validar no início.
- Quando estiver a andar sozinho, passar ao próximo.
No passo 3 a pessoa continua lá. No início a máquina faz e a pessoa confere. Com o tempo, a pessoa só olha para os casos estranhos. É assim que se ganha confiança, e foi assim em quase todas as emrpesas onde vi isto correr bem.
Com pouca gente e salários que precisam de subir, não faz sentido ter pessoas qualificadas a copiar e colar.
Qual é o processo que toda a gente detesta na sua empresa? Diga-me, que eu digo-lhe se dá para automatizar.


