Programar com IA: escreve-se menos código e faz-se mais software
Como a IA mudou o trabalho de programador: escreve-se menos código, faz-se mais software e revê-se tudo. O que isto significa para quem encomenda.

Houve um tempo em que, para resolver um erro, um programador passava uma tarde a ler fóruns. Hoje os programadores escrevem muito menos código do que há dois anos, e nunca se fez tanto software.
O que mudou no dia a dia
O programador deixou de ser a pessoa que escreve cada linha e passou a ser a pessoa que explica, revê e decide. Descreve o que quer, com detalhe, a um assistente de programação com IA. O assistente propõe o código, corre os testes, encontra os erros. O programador lê, corrige o rumo, recusa o que não presta e aprova o que está bem.
Já é a regra na profissão. No inquérito anual da Stack Overflow de 2025, 84% dos programadores disseram que usam ou planeiam usar ferramentas de IA no seu trabalho, e entre os profissionais mais de metade usa-as todos os dias. O dicionário Collins até escolheu "vibe coding" como palavra do ano de 2025: programar descrevendo em linguagem natural o que se quer.
Um exemplo
Imagine que uma empresa encomenda um pequeno sistema para registar pedidos de assistência técnica: o cliente liga, alguém regista, um técnico é atribuído, o cliente recebe um SMS quando está resolvido.
Há uns anos, isto eram várias semanas. Base de dados, ecrãs, validações, testes, ligação ao SMS. Muito trabalho repetitivo, que qualquer programador conhece de cor.
Hoje a parte repetitiva sai em horas. O tempo que sobra vai para perceber bem como a empresa trabalha, pensar nos casos estranhos (e se o cliente tem dois contratos?) e afinar o que o técnico vê no telemóvel. Passa-se menos tempo ao teclado e mais a falar com o cliente.
O que a IA ainda faz mal
O mesmo inquérito mostra que há mais programadores a desconfiar da precisão da IA do que a confiar nela.
A IA escreve código com muita confiança, mesmo quando está errado. Às vezes inventa funções que não existem. Às vezes resolve o problema que pedimos e cria outro ao lado, sem avisar. Sem alguém com experiência a rever, o resultado pode brilhar numa demonstração e falhar no primeiro mês de uso real.
Por isso, tudo o que a IA escreve tem de ser lido por uma pessoa antes de ir para produção. A IA acelera, mas a responsabilidade continua a ser de quem entrega o software. Quem ache que pode substituir uma equipa de programação por um chatbot vai ter surpresas desagradáveis.
O que muda para quem encomenda software
O mais visível é o tempo. Coisas que antes ficavam fora do orçamento porque "dava muito trabalho" passaram a caber. Um relatório a mais, uma integração com outro programa, uma versão para telemóvel. O que antes se cortava na fase final hoje muitas vezes já entra.
Como um protótipo se faz depressa, dá para mostrar uma versão a funcionar muito mais cedo. O cliente mexe, diz o que não gosta, e corrige-se antes de investir mais. Lá se vai o clássico "não era bem isto que eu queria" ao fim de meses.
Daqui a pouco tempo, ninguém vai perguntar se um programador usa IA. Vai ser como perguntar se usa um teclado.
Se tem uma ideia de software na gaveta porque parecia cara ou demorada, conte-ma. Pode caber numa primeira versão de poucas semanas.


