Portugal está atrasado? Então pode saltar etapas
Estar atrás tem uma vantagem: não é preciso repetir os erros de quem foi à frente. Porque é que as empresas portuguesas podem saltar etapas com a IA.

Já escrevi aqui que, no uso de inteligência artificial, as empresas portuguesas continuam bem abaixo da média europeia. Na tecnologia, Portugal costuma chegar um bocado depois dos outros.
Dá para lamentar. Eu prefiro olhar para isto como uma vantagem.
Quem está atrás não tem de passar pelas mesmas fases
Há uma coisa que os economistas chamam saltar etapas. Um país que não tinha a tecnologia antiga não tem de a instalar primeiro para depois a trocar pela nova. Vai direto à nova.
O exemplo mais conhecido é o Quénia. Pouca gente tinha conta no banco, mas quase toda a gente tinha telemóvel. Em 2007 nasceu o M-Pesa, dinheiro pelo telemóvel, e milhões de pessoas passaram a fazer pagamentos sem nunca terem tido um balcão de banco perto de casa. A China fez uma coisa parecida: muita gente passou do dinheiro vivo para o pagamento com o telemóvel sem passar pela fase dos cartões de crédito.
Portugal já fez isto antes
Nem é preciso ir tão longe. Nós próprios já saltámos etapas várias vezes:
- A rede Multibanco arrancou em 1985 e montou um sistema partilhado por todos os bancos que muitos países ricos não tinham.
- A Via Verde começou em 1991 e pôs-nos a passar portagens sem parar, quando noutros sítios ainda se fazia fila com moedas na mão.
- O MB WAY apareceu em 2015 e em 2018 já tinha mais de um milhão de utilizadores. Hoje transferir dinheiro com um número de telemóvel é normal para os nossos pais.
- Na energia, as renováveis abasteceram 71% do consumo de eletricidade em 2024, segundo a REN.
Ou seja, quando decidimos avançar, avançamos bem. Capacidade nunca nos faltou.
O que isto quer dizer para uma PME
Muitas empresas portuguesas nunca chegaram a ter um ERP bem montado, um CRM a sério ou processos todos digitalizados. Costuma dizer-se que isto é atraso. Neste momento, eu acho que também é uma oportunidade.
Uma empresa que vai agora informatizar a gestão não precisa de copiar o que as grandes fizeram há quinze anos, com ecrãs cheios de menus e meses de formação. Pode começar logo com software que lê documentos sozinho, que responde a perguntas em linguagem normal e que liga os programas entre si. Salta a fase dos formulários infinitos.
Quem tem sistemas antigos e pesados vai ter de os desmontar. Quem não tem quase nada pode construir já da forma nova.
O que falta é perder o medo
A tecnologia já cá está, e boa parte dela é barata. Falta-nos a vontade de experimentar. Muita gente prefere ver primeiro os outros fazer, e quem espera para ver acaba por chegar quando os outros já aprenderam tudo.
Aposto que nos próximos anos vamos ver PME portuguesas a usar IA melhor do que empresas grandes lá de fora, precisamente porque não têm tanta coisa velha para arrastar.
Quer saber que etapas a sua empresa pode saltar? Marque uma conversa e pomos as ideias em cima da mesa.


